A trégua já acabou!

Coluna de Marcio Rachkorsky

Por Marcio Rachkorsky*

2019 foi o ano da intolerância e da brutalidade nos condomínios! Brigas de vizinhos, ofensas nos grupos de mensagens, destituição de síndicos por motivos banais, processos judiciais, boletins de ocorrência, constrangimento a funcionários e comportamento antissocial. Neste cenário, o cargo de síndico, outrora tão valorizado, é hoje um verdadeiro abacaxi, tarefa para poucos. Sem falar nas despesas que não param de subir e na necessidade de caprichar na manutenção para evitar acidentes e tragédias como as que vimos recentemente com vazamento de gás, queda de marquise, incêndios em quadros elétricos, alagamentos e quedas de elevadores.

Como num passe de mágica, lá pelo dia 20 de dezembro, veio a trégua. O já conhecido espírito natalino chegou com mais força nesse final de ano e, até 5 de janeiro, a paz reinou absoluta nos condomínios, como deveria ser o ano inteiro. Sem tanta pressa e stress, muitos moradores até trocaram um dedo de prosa com o porteiro e com a faxineira, seres invisíveis ao longo do ano todo. Nos grupos de mensagens, as reclamações deram lugar às palavras de carinho entre vizinhos, de votos de Feliz Natal, paz e harmonia no Ano Novo. Nestas duas semanas, muitos síndicos conseguiram descansar e, esperançosos, fizeram planos para a gestão dos seus condomínios, contando com maior tolerância e serenidade dos moradores.

Segunda, 6 de janeiro, a trégua acabou! Ainda fora de ritmo, mas com apetite de leão, os chatos de plantão, os mal-educados e os reclamões voltaram com tudo, anunciando que 2020 não será tão fácil como parecia. A trégua não foi legítima, a paz era passageira e viver num condomínio com mais harmonia vai novamente virando uma utopia.

Síndico dedicado, um amigo meu comemorava os bons resultados financeiros de sua gestão e, juntamente com o conselho, resolveu gastar um pouco mais na decoração de Natal do condomínio. Surpreso e feliz, notou que até o grupo de oposição, liderado por uma moradora bastante briguenta, elogiou o bom gosto dos enfeites. Mas, no dia 6 de janeiro, quando oficialmente o período de trégua acaba, foi rispidamente indagado sobre tais custos e autorização das despesas. Aquela moradora (a briguenta) já postou no grupo algo sobre falta de prioridades e de transparência, sobre o absurdo de gastar tanto dinheiro com luzinhas de Natal e que não teve acesso aos orçamentos e não viu o projeto elétrico. E assim, devagarzinho, o almejado clima cordial de vizinhança vai sucumbindo. E meu amigo, frustrado, já pensa em renunciar.

Nos condomínios, o ano de 2020 precisa ser o período de resgate das boas relações de vizinhança, do espírito colaborativo, do respeito e do diálogo. De forma que somente as gestões colegiadas e participativas trarão melhores resultados financeiros, operacionais e comportamentais.

*Marcio Rachkorsky é advogado especialista em condomínios e colunista da Revista Área Comum.

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