Zelador: uma espécie em extinção nos condomínios

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Por Caroline Garcia 

Em uma realidade cada vez mais automatizada visando sempre a redução de custos, a figura do zelador, que comemora seu dia em 11 de fevereiro, já está em falta em muitos condomínios. É comum encontrar, inclusive, empreendimentos autônomos que funcionam sem a presença física de funcionários. Mas a posição desses profissionais é unânime ao afirmar que nada substitui a habilidade humana quando o assunto é promover o bem-estar e cuidar do patrimônio dos moradores.

“Nossas principais funções são zelar, como o nome já diz, pelo patrimônio coletivo dos moradores. Cabe nisso verificar diariamente todos os sistemas, equipamentos e áreas comuns do condomínio. Além de ser um verdadeiro líder para sua equipe, cobrando, advertindo, elogiando e instruindo os colaboradores de maneira justa e equilibrada. E para essas atribuições é essencial ter um profissional presente”, diz Horácio Monteiro de Almeida, 47 anos, que trabalha há nove como zelador.

Outro ponto citado pela categoria é a agilidade com a qual o zelador pode resolver algum problema inesperado no condomínio justamente pelo fato de estar no residencial diariamente e conhecer o prédio “como a palma da mão”. “Recentemente tivemos um problema de desabastecimento de água devido a uma falha inesperada em um painel de comando das bombas de recalque. O síndico me ligou para que o ajudasse e, de imediato, acionei a empresa responsável para que fosse ao local e também peguei um carro e fui para o condomínio dar suporte. Acabei chegando antes da empresa e, como tenho cursos técnicos na área, logo fiz um rastreamento em todas as instalações e identifiquei a falha. Em seguida, reativei o painel de forma provisória para que retomasse o abastecimento até que os profissionais chegassem para dar uma solução definitiva. Esse episódio ocorreu na minha folga e no período noturno”, conta Leônidas da Silva, 38, que está há quase 10 anos na profissão.

Foi também um vazamento de água que fez com que os serviços de Almeida fossem acionados fora do seu horário de serviço. “Em uma ocasião, tivemos um vazamento hidráulico em plena madrugada em uma unidade que atingiu os poços dos elevadores. Assim que fui avisado, desliguei imediatamente os circuitos elétricos para depois localizar de onde vinha o problema. Por causa da agilidade em interromper o funcionamento dos equipamentos, os danos foram bem menores, segundo a seguradora.”

De acordo o presidente do Sindifícios (Sindicato dos Trabalhadores em Edifícios Comerciais e Residenciais de São Paulo), Paulo Roberto Ferrari, o fato de muitos condomínios não terem mais a função de zeladoria é algo passageiro. “A tecnologia não substitui o ser humano. Muitos empreendimentos já estão percebendo isso e visualizando a necessidade de recolocar o profissional para dentro do prédio.”

É exatamente isso que espera Paloma Machado da Silva, 28, que entrou nesse mercado há somente dois meses. “Vejo que é uma profissão que realmente está encolhendo, mas é algo que consegui faz pouco tempo e me esforcei bastante para estar onde estou. Quero ter um futuro longo nela.”

Para Paloma, ser zeladora em um meio onde há mais homens do que mulheres é motivo de orgulho. “Muitas empresas, para economizar, acabam contratando uma pessoa só para fazer o serviço de zeladoria e manutenção. Então é um trabalho que acaba chegando mais fácil para os homens, embora nós sejamos tão capacitadas e competentes quanto.”Entre os problemas trabalhistas enfrentados pela profissão, assédio moral, racismo, preconceito e discriminação por falta de estudo e gênero são os principais casos que chegam até o sindicato. “Há dois anos criamos uma campanha de valorização da categoria. O zelador precisa saber lidar com todos os tipos de comportamentos dos condôminos, porque vai ter aquele que reconhece o trabalho e o outro que acha que ele é uma peça descartável. Por isso é necessário ter jogo de cintura. Mas absolutamente nada justifica a violência moral ou física. E caso o trabalhador venha até nós com um caso do tipo, vamos até o condomínio para saber o que está acontecendo”, pontua Ferrari.

Apesar da atual realidade, a perspectiva do sindicalista é otimista para a criação de postos de trabalho na área condominial – entre eles os de zeladores – já que o mercado imobiliário está se aquecendo aos poucos. “A maioria dos terrenos hoje, principalmente em São Paulo, estão se transformando em condomínios. Ou seja, mais para frente precisarão de empregados.”

Para se preparar para ocupar uma dessas futuras vagas, a indicação de quem está na área é sempre se manter atualizado e fazer, além do curso específico de zeladoria, outros que podem ajudar no setor, como elétrica e hidráulica. “Acompanhar as mídias sociais e digitais, participar de palestras na área condominial e se atualizar quanto às novidades lançadas nesse mercado são pontos bem importantes também”, finaliza Silva.

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